Escritos do Maninho, poemas, letras de música, pensamentos, textos…….Enfim, a vida do Maninho….

Últimas

Cezane

 

Eu olhava pela fresta, pelo mínimo orifício que me dividia da parte de fora, do ar livre que repiravam e que eu não sentia, da correria, do som alto e repetitivo da vida que pulsava.

É bonito, é colorido e é abstrato. É como se a porta se abrisse, e o buraco da fechadura, que antes parecia o mundo inteiro visto daqui, já era pequeno aos meus olhos, que queriam mais, queriam ser, queriam estar.

Lá fora, nú, desprotegido, eu andei aos galopes, solto, desperto, mas atento ao que não me podia faltar depois. Os instantes com a porta aberta valem todos os segundos, e mesmo que eu não tenha mais força para caminhar, as lembranças me visitam, e meus olhos são lavados por elas, e nenhum vermelho pode mais manchar.

A vida é pequena, curta, distante e implacável. O que não se faz hoje, se perde hoje, e amanhã já se está em dívida. O tempo vai se cumprir.

Soldadinhos …

 

 

Há dias eles andam tramando algo. Aparecem no meio da tarde, próximos ao tapete do consultório, e começam a andar em círculos, me olhando de canto como se desconfiassem de algo, em perfeita sincronia dos pés e dos sorrisos, que enfeitam de orelha a orelha o rosto pequeno dos homenzinhos fardados.

Hoje eles não me olharam e, mesmo sabendo que não suporto, cantaram Led Zepelin em cima da mesa, e ameaçaram cantar The Doors até que eu disse: Chega!

Correram todos para a porta assustados, apontando suas armas de brinquedo para mim, e saíram um por um pela porta fechada, deixando o eco das canções bizarras em meu pensamento, e um bilhete grudado na porta dizendo: porque você não foi?

 

 

 

Cold Water

Certo de que o dia teria um bom final, resolveu perder alguns minutos na beirada do rio. O dia era frio, nublado, e até os animais procuravam se esconder do céu preparado em tempestade, todos menos ele.
Retirou os calçados, e os jogou atrás das costas, e assim mesmo, vestido, foi passo a passo para dentro da água fria.
Aguhas, pequenas agulhas o empurravam para fora, mas o nível da água ía subindo, até molhar sua cintura.
Uma força imensa agora o tentava retirar do gelo em que estava imerso, mas a água agora já molhava seu pescoço.
Certo de que o dia teria um bom final, mergulhou.

Enquanto ainda é sonho

 

– Antes que o sol desapareça, meu mundo quer encher-se da luz azul que dele irradia.

Nos últimos dias do outono sem cor, o menino descalço não parece se importar com as poças da calçada de basalto lixado em frente a casa. Acaba chutando a água com os dedos, transformando em gotas aquilo que antes era acúmulo.

É hora de ir pra casa, é hora do banho quente, das roupas limpas, juntar tulipas pra oferecer a alguém. Em nenhum dos sonhos do menino havia tanta cor como naquele, em que os dias claros eram ofuscantes demais para abrir os olhos.

Agora que o céu nublou, o menino enxerga mais, vê que o sonho não ficou melhor depois que virou lembrança, e fecha os olhos na tentativa de dormir novamente. Saudade.

– Antes que o sol desapareça, quero voltar a ver a luz através dos teus olhos nublados.

Com a tua mão

 

Me conduz! Quando a névoa e a luz escondem o que há na frente, pensar em ti clareia minha visão, ilumina o caminho a frente, me enche de coragem para seguir caminhando.

Quem dera ter tua voz sempre aqui,  não a me dar respostas, mas a fazer-me carinhos.

Contigo eu vou, contigo sigo, e qualquer que seja o destino, já  basta ter-te ao meu lado.

Tesouro I

Nos dias ensolarados do outono frio vaga o menino pelas ruas. Torto, pelas esquinas, segue seu caminho de sempre, olhando o passar daquela gente como se nunca tivesse visto antes.

Existe algo que o menino procura, que vive a esconder-se pelas frestas, pelo destino. Em outros dias chegou tão perto que achou ter feito sua descoberta. Perdeu-se no engano, no vazio, na distância.

Nesse dia ensolarado, que vários dias e noites durou, seu tesouro passou perto, tocou-lhe as mãos, soprou em seu ouvido e foi-se, pra nunca mais voltar.

O que me espera

 

Eu costumo andar pelas calçadas. Nenhum obstáculo chama minha atenção, e pelo caminho formado em minha mente vou caminhando.

Os obstáculos não mudam minha opinião, o que não significa que nada muda minha opinião.

Algo bom pela estrada, um som, um carinho, o cheiro da chuva nas esquinas, a cor da paisagem e quem nela habita me chama a atenção, e sou o primeiro a parar a carruagem.

Pé no estribo, a primeira medida a fazer é avaliar onde estou.

Pé no chão, a segunda medida é saber porque sinto.

Tudo que meu coração manda nessa hora é parar.

Um abraço me faria atravessar o mundo, e é sonhando com ele que me ponho a caminhar outra vez.