Escritos do Maninho, poemas, letras de música, pensamentos, textos…….Enfim, a vida do Maninho….

arte

As voltas com o tempo

O que fazer com esse tempo e suas promessas?
Antes que se diga a verdade é bom lembrar que ele vive a me trapacear. Ele mesmo que disse que voltarias, ele mesmo que disse que ficarias, que estarias a me encher de ar os dias sufocantes, as madrugadas sem fim dos pensamentos escuros, ele mesmo que me disse tudo hoje insiste em ficar em silêncio.
É muito fácil assim, não é? Ficar nas margens enquanto sonhamos, aplaudindo de pé a descida a favor da corrente, gritando palavras de apoio, enquanto viajamos para o vale perigoso, para a parte sem saída, para o desfiladeiro, para a cachoeira.
Agora que estou sozinho, no barco, a deriva, nao te encontro pelas margens, e foges de mim quando te grito, quando te peço socorro.
Brigo contigo sim, tempo infeliz, que brinca comigo sem riscos, que chacota da velocidade em que vivo, e me abandona quando mais preciso.
Hoje tenho todo tempo do mundo, e não tenho justamente o tempo que preciso.

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Quando o céu é nosso.


Parecia que o dia foi feito para nós. Após o almoço deitamos na rede, sem trocar nenhuma palavra, até porque ele não fala ainda… Nos olhamos várias vezes, como se fossemos cúmplices de longa data, e para ele assim era, pois ele me conhecia mesmo antes de nascer.

Ele apontava para tudo, primeiro para o chão, para as formigas, para a grama… Depois apontou para a árvore, para a nossa casa, para mim, para onde estava sua mãe… Em seguida começou a apontar para o céu, e ali ficou, apontando durante alguns minutos, para as nuvens e para o azul. Ficamos ali olhando aquela imensidão que era a extensão do nosso quintal, nosso jardim de nuvens, em silêncio, e ali perdemos a noção do tempo.

Quando meus olhos começaram a cansar de tanta luz, olhei novamente para ele, que continuava apontando para cima como se quisesse me mostrar algo. Meus olhos fecharam, e no sonho continuávamos eu e ele ali, abraçados para sempre, com a nítida certeza de que o céu é o nosso lugar.


Riqueza

 

                Em meio a nuvens e ventania o menino abre os braços e grita. Sua felicidade chega ao auge quando os primeiros pingos de chuva molham o seu rosto.

                Era outono, e o frio tomava conta da cidade, invadindo lentamente os lares e os ossos. De bermudas ele não sentia as barras de gelo que eram seus pés, já sem os chinelos.

                A vizinhança toda olhava pela janela aquele espetáculo singular, onde as gotas de água se misturavam ao sorriso do menino. Rico, ele tentava segurar entre as mãos o motivo de sua alegria. Era dia de fartura.

                Todos na região sabiam que nos dias de chuva, sempre podia se ouvir aquele menino que dizia vender chuva.

 

 


Locomotiva

O céu abre passagem

Quando os ponteiros dizem não

Quando o momento insiste em estar

Mais próximo do sim

Talvez seja a hora

De arrumar as malas, ser vagão

Que anda sem saber o rumo

Só pelo prazer de andar

Estar no passo certo

É redundância, é a vida

Puxada na locomotiva

Que os dias atrevidos

Insistem em pegar carona

Que horas já são?

Nesse instante me devoro

No pensamento constante

Na hora que deveria ser minha

E que sem angústia controlo


Aos que me visitam….

 

Há algumas semanas visitei uma casa, um lugar acolhedor que reflete um pouco das qualidades do casal que vive com sua filha ali. Ele se chama Marcelo Quintanilha, um cara bem humorado, cabeça aberta, espontâneo e inteligente. Ela se chama Vânia Abreu, mulher decidida, talentosa, de olhar manso mas de fala precisa.

Os dois, hoje, me visitam, cada um com o fruto do seu trabalho, e seus cantos povoam minha casa. Há dias que escuto esses dois, e há algo neles que me impressiona.

O cuidado com relação ao que cantam, o bom gosto na seleção de repertório e a delicadeza dos arranjos só espelham o amor que eles tem com a boa música que praticam, a boa música brasileira.

Eles são fiéis a essa cultura, são fiéis a nossa linda língua portuguesa.

Hoje eles tem mais que a custódia dos meus ouvidos. Já conquistaram meu respeito e minha admiração.

 

www.vaniaabreu.com.br

www.marceloquintanilha.com.br


Silêncio

 

 

            Em uma rajada rápida o vento derruba as folhas da Aroeira do quintal vizinho, movendo-as por sobre o piso de concreto, fazendo um ruído oscilante, como se houvesse alguém, como se caminhassem arrastando os pés.

            Nesse dia resolveu escrever uma carta, despretensiosa, falando sobre as coisas simples. Nem o ar frio, nem a chuva fina podiam atrapalhar a aparição do sol, que aos poucos ia tomando conta da paisagem do fim de tarde, por entre as nuvens abrindo espaço para fazer companhia ao menino.

            Sentia como se os dedos falassem, e cada frase escrita era como espelho das palavras sentidas. Chegava a ouvir, no atrito do lápis com o caderno, o sotaque que só nas regiões vizinhas se podia ouvir.

            Desde pequeno havia algo que não o deixava calar, porém, com o passar do tempo, aprendeu a falar cada vez mais baixo, e o silêncio começou a tomar conta da casa e de seus pensamentos.

            Ao finalizar a carta agradeceu, e em um golpe só engavetou o escrito, escondendo o que havia de bonito, ocultando o que havia de mais profundo.

            Voltou a olhar para o sol.

 

 

 

 

 

 

 


Sonhos VII

 

 

 

Ultimamente andava cansado, e o peso das pernas o fazia parar a cada esquina, numa caminhada cíclica que confundia os vizinhos.

Era daqueles homens que não conseguia ficar parado, hora pensando sobre os assuntos mais importantes, hora descascando um tronco de ipê em frente a sua casa, como se daquilo dependesse sua calma, sua paz.

Quando notou que não havia quem prestasse atenção ao seu assobio, começou a cantarolar pequenas canções de sua autoria, a maioria falando dos dias frios e da solidão.

Quando notou que ninguém ouvia, começou a gritar palavras soltas, uma mescla de sentimentos e definições muitas vezes vividas, outras não.

Quando notou que ninguém sentia, já era tarde…