religião


idoso-olho

Na rua os retratos da solidão infeitam o arvoredo, que pelo vento que refresca essa época do ano, vive penteado como se fosse cria lambida.

Em cada rosto um recado, em cada gesto um lamento. Tantos anos de convivência e um futuro de ausência deixam o sorriso da mulher manchado.

Na noite gelada uma notícia ruim cala o saguão do hospital.

Quanto tempo se passou desde que eramos crianças? A mulher procura respostas em toda fé que ainda resta.

Será possível Deus participar disso? Disse-me ela, sem piscar os olhos.

Naquele momento me enxerguei aos prantos, fugindo pra casa, rezando para que tudo estivesse em paz quando amanhecesse o novo dia.

 

                Em meio a nuvens e ventania o menino abre os braços e grita. Sua felicidade chega ao auge quando os primeiros pingos de chuva molham o seu rosto.

                Era outono, e o frio tomava conta da cidade, invadindo lentamente os lares e os ossos. De bermudas ele não sentia as barras de gelo que eram seus pés, já sem os chinelos.

                A vizinhança toda olhava pela janela aquele espetáculo singular, onde as gotas de água se misturavam ao sorriso do menino. Rico, ele tentava segurar entre as mãos o motivo de sua alegria. Era dia de fartura.

                Todos na região sabiam que nos dias de chuva, sempre podia se ouvir aquele menino que dizia vender chuva.

 

 

O céu abre passagem

Quando os ponteiros dizem não

Quando o momento insiste em estar

Mais próximo do sim

Talvez seja a hora

De arrumar as malas, ser vagão

Que anda sem saber o rumo

Só pelo prazer de andar

Estar no passo certo

É redundância, é a vida

Puxada na locomotiva

Que os dias atrevidos

Insistem em pegar carona

Que horas já são?

Nesse instante me devoro

No pensamento constante

Na hora que deveria ser minha

E que sem angústia controlo

             

 

               Alguém cruzava pelo corredor ainda cedo de manhã.  Os dias eram todos iguais naquele lugar, como se vida fosse reduzida a poucos metros quadrados, totalmente cercados, de onde não se pode sair.

                Havia um ruído durante a noite que não o deixava dormir. Era uma soma da respiração de tanta gente em tão pouco espaço, e os assobios ganhavam eco por entre as pilastras que dividiam os tais corredores.

                No meio do ar denso, uma voz tomava forma, e trazia um bem estar que atingia a alma, e só depois disso conseguia dormir.

                Anos depois, já em liberdade, resolveu ir ao encontro do dono da voz.

                Ao contar sua história, calou aquele que na fita cassete cantava, enquanto se ouvia um choro misto de satisfação e alegria: Deus estava todo tempo ali, conosco!

 

 

 

PS: Durante o final de semana passado recebi um testemunho que talvez seja o mais importante de toda minha vida como músico. Minhas músicas foram consolo e porta de liberdade de alguém que permaneceu em uma cadeia durante 8 anos. Fui companhia para essa pessoa, que hoje esta livre, muito livre. Ganhei um abraço, e não tive tempo de perguntar nem ao menos seu nome. Quando foi embora, fiquei observando como eram seus passos, e em linha reta, cabeça baixa, só consegui ver que fazia o sinal da cruz enquanto virava a esquina. Naquele momento, eu também podia ir embora.

 

 

 

\"Nascer do Sol\"

Hoje vou fazer de conta

Sair andando devagar

Como quem tem todo o tempo

E o mundo me esperasse

 

Hoje vou dizer bom dia

Como se o dia fosse

Já que precisa ser feito

Que seja pelo nosso desejo

 

Hoje o mundo me espera

Hoje o dia é bom

Hoje o amor me encontra

E o tempo que me devolva

Os dias que já perdi

 

               

                Toda vez que a porta rangia e o vento gelado percorria os cômodos da casa a sensação do menino era a mesma. Um tremor parecia brotar de dentro dos ossos, e escondido entre as cadeiras da cozinha ficava horas até alguém chamá-lo.

                Venha cá, senão te arranco a cabeça! A frase soava tão corriqueira que o menino já acostumado levantava aos prantos antes mesmo da dor chegar.

                Todos os tapas e esmurros não chegavam aos pés do medo da frase se concretizar. Na imaginação do menino, as palavras da mãe eram um fantasma com o qual tinha de viver até ser vencido.

                Meu telefone toca, e na emergência alguém me chama. Desço as escadas apressado. Uma mão inchada, a outra não enxergo.

Tudo é tão rápido, e o menino só fala de um alicate, e eu em silêncio só penso em Deus.

O menino pergunta se vai doer, e em seguida me pede a mão. Eu a ofereço, e em troca não recebo a dele, e sim sua cabeça.

 

O grito, Munch

O grito, Munch            

            O que existia naquele momento em que nossos olhos se tocaram? Fantasia? Ilusão?

Um disfarce de realidade sempre toca meus ouvidos assim que o inusitado insiste em aparecer. Um esboço de sorriso irrompeu quando ouvi dizerem teu nome, e uma página a mais se viu obrigada a dar as costas para a minha história, dando lugar a um novo conto.

Como pode o tempo esconder as tuas feições? A beleza permanecia temperando a minha memória, porém com menos intensidade. O que tua presença em minha frente fez foi alimentar-me de uma vez só das tuas lembranças. Foi quando o gosto na boca impediu-me de falar.

Simplesmente silenciei.