poesia


idoso-olho

Na rua os retratos da solidão infeitam o arvoredo, que pelo vento que refresca essa época do ano, vive penteado como se fosse cria lambida.

Em cada rosto um recado, em cada gesto um lamento. Tantos anos de convivência e um futuro de ausência deixam o sorriso da mulher manchado.

Na noite gelada uma notícia ruim cala o saguão do hospital.

Quanto tempo se passou desde que eramos crianças? A mulher procura respostas em toda fé que ainda resta.

Será possível Deus participar disso? Disse-me ela, sem piscar os olhos.

Naquele momento me enxerguei aos prantos, fugindo pra casa, rezando para que tudo estivesse em paz quando amanhecesse o novo dia.

O céu abre passagem

Quando os ponteiros dizem não

Quando o momento insiste em estar

Mais próximo do sim

Talvez seja a hora

De arrumar as malas, ser vagão

Que anda sem saber o rumo

Só pelo prazer de andar

Estar no passo certo

É redundância, é a vida

Puxada na locomotiva

Que os dias atrevidos

Insistem em pegar carona

Que horas já são?

Nesse instante me devoro

No pensamento constante

Na hora que deveria ser minha

E que sem angústia controlo

             

 

               Alguém cruzava pelo corredor ainda cedo de manhã.  Os dias eram todos iguais naquele lugar, como se vida fosse reduzida a poucos metros quadrados, totalmente cercados, de onde não se pode sair.

                Havia um ruído durante a noite que não o deixava dormir. Era uma soma da respiração de tanta gente em tão pouco espaço, e os assobios ganhavam eco por entre as pilastras que dividiam os tais corredores.

                No meio do ar denso, uma voz tomava forma, e trazia um bem estar que atingia a alma, e só depois disso conseguia dormir.

                Anos depois, já em liberdade, resolveu ir ao encontro do dono da voz.

                Ao contar sua história, calou aquele que na fita cassete cantava, enquanto se ouvia um choro misto de satisfação e alegria: Deus estava todo tempo ali, conosco!

 

 

 

PS: Durante o final de semana passado recebi um testemunho que talvez seja o mais importante de toda minha vida como músico. Minhas músicas foram consolo e porta de liberdade de alguém que permaneceu em uma cadeia durante 8 anos. Fui companhia para essa pessoa, que hoje esta livre, muito livre. Ganhei um abraço, e não tive tempo de perguntar nem ao menos seu nome. Quando foi embora, fiquei observando como eram seus passos, e em linha reta, cabeça baixa, só consegui ver que fazia o sinal da cruz enquanto virava a esquina. Naquele momento, eu também podia ir embora.

 

 

 

 

 

            Em uma rajada rápida o vento derruba as folhas da Aroeira do quintal vizinho, movendo-as por sobre o piso de concreto, fazendo um ruído oscilante, como se houvesse alguém, como se caminhassem arrastando os pés.

            Nesse dia resolveu escrever uma carta, despretensiosa, falando sobre as coisas simples. Nem o ar frio, nem a chuva fina podiam atrapalhar a aparição do sol, que aos poucos ia tomando conta da paisagem do fim de tarde, por entre as nuvens abrindo espaço para fazer companhia ao menino.

            Sentia como se os dedos falassem, e cada frase escrita era como espelho das palavras sentidas. Chegava a ouvir, no atrito do lápis com o caderno, o sotaque que só nas regiões vizinhas se podia ouvir.

            Desde pequeno havia algo que não o deixava calar, porém, com o passar do tempo, aprendeu a falar cada vez mais baixo, e o silêncio começou a tomar conta da casa e de seus pensamentos.

            Ao finalizar a carta agradeceu, e em um golpe só engavetou o escrito, escondendo o que havia de bonito, ocultando o que havia de mais profundo.

            Voltou a olhar para o sol.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ultimamente andava cansado, e o peso das pernas o fazia parar a cada esquina, numa caminhada cíclica que confundia os vizinhos.

Era daqueles homens que não conseguia ficar parado, hora pensando sobre os assuntos mais importantes, hora descascando um tronco de ipê em frente a sua casa, como se daquilo dependesse sua calma, sua paz.

Quando notou que não havia quem prestasse atenção ao seu assobio, começou a cantarolar pequenas canções de sua autoria, a maioria falando dos dias frios e da solidão.

Quando notou que ninguém ouvia, começou a gritar palavras soltas, uma mescla de sentimentos e definições muitas vezes vividas, outras não.

Quando notou que ninguém sentia, já era tarde…

 

 

 

 

A frase certa no momento errado

E a solidão dos dias

Que passam, que passam

 

Não há decepção maior

Do que a hora marcada

Em que o esperado

Simplesmente se esquece

 

Fica na mão um bilhete

Uma vontade apertada

Como nó que não cede

 

Fica o desejo de estar

Vence o desejo de ir

O bilhete em pedaços descansa pelos cantos

E os pedaços do coração vivem como bilhetes

 

 

  

 

 

 

 

O que gosta de ser essa menina

Gosta de bambolê, de ter Maria-chiquinha

Gosta tanto de ler, gosta do que vê e sente

 

Prende flor no cabelo, usa vestido de chita

Calça chinelo de dedo, na rua sempre desfila

Na passarela do ipê, dança e canta como artista

 

Gosta de pastel de queijo

Com goiabada e um beijo seu

 

Borda o seu nome num lenço

Deixa um bilhete na porta

E diz que vai voltar

 

Diz que vai voltar

 

 

(PS: outra letra de música do projeto citado anteriormente…. começo a sonhar que dê certo!)

\"Nascer do Sol\"

Hoje vou fazer de conta

Sair andando devagar

Como quem tem todo o tempo

E o mundo me esperasse

 

Hoje vou dizer bom dia

Como se o dia fosse

Já que precisa ser feito

Que seja pelo nosso desejo

 

Hoje o mundo me espera

Hoje o dia é bom

Hoje o amor me encontra

E o tempo que me devolva

Os dias que já perdi

 

                

                O dia era chuvoso, e os sapatos faziam um som em contato com a calçada, espalhando gotas pela rua, deixando pegadas que desapareciam em segundos.

                O caminho ele não sabia, mas era movido por um sentimento de falta, algo que conseguia traduzir somente com uma palavra: Saudade.

                Quando o vento o alcançava de lado, trocava os passos, segurando a jaqueta com a mão, escondendo o rosto, mesmo sem ter vergonha do que fazia. Buscava um alívio, buscava uma cura.

                Quando chegou à porta da casa, viu aqueles olhos através da janela. Prendeu a respiração durante alguns segundos.

                Olhou, sorriu, respirou.

                Voltou…

 

                Havia uma maneira de conseguir sua atenção.  Enquanto cantavam o menino sentava sobre os tornozelos, e por ali podia ficar horas, somente escutando.

                Os homens costumavam cantar enquanto batiam seus martelos, e as melodias enchiam o ambiente de calor no inverno gélido do sul do país.

                Quando o mandavam para casa, o menino não se movia.

                Já está na hora!!! Sempre diziam.

O menino apontava para seu punho, onde havia desenhado um relógio, dizendo para si mesmo: no meu tempo sempre há tempo.

E os homens cantavam mais uma canção.

 

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