arte


 

                Em meio a nuvens e ventania o menino abre os braços e grita. Sua felicidade chega ao auge quando os primeiros pingos de chuva molham o seu rosto.

                Era outono, e o frio tomava conta da cidade, invadindo lentamente os lares e os ossos. De bermudas ele não sentia as barras de gelo que eram seus pés, já sem os chinelos.

                A vizinhança toda olhava pela janela aquele espetáculo singular, onde as gotas de água se misturavam ao sorriso do menino. Rico, ele tentava segurar entre as mãos o motivo de sua alegria. Era dia de fartura.

                Todos na região sabiam que nos dias de chuva, sempre podia se ouvir aquele menino que dizia vender chuva.

 

 

O céu abre passagem

Quando os ponteiros dizem não

Quando o momento insiste em estar

Mais próximo do sim

Talvez seja a hora

De arrumar as malas, ser vagão

Que anda sem saber o rumo

Só pelo prazer de andar

Estar no passo certo

É redundância, é a vida

Puxada na locomotiva

Que os dias atrevidos

Insistem em pegar carona

Que horas já são?

Nesse instante me devoro

No pensamento constante

Na hora que deveria ser minha

E que sem angústia controlo

 

Há algumas semanas visitei uma casa, um lugar acolhedor que reflete um pouco das qualidades do casal que vive com sua filha ali. Ele se chama Marcelo Quintanilha, um cara bem humorado, cabeça aberta, espontâneo e inteligente. Ela se chama Vânia Abreu, mulher decidida, talentosa, de olhar manso mas de fala precisa.

Os dois, hoje, me visitam, cada um com o fruto do seu trabalho, e seus cantos povoam minha casa. Há dias que escuto esses dois, e há algo neles que me impressiona.

O cuidado com relação ao que cantam, o bom gosto na seleção de repertório e a delicadeza dos arranjos só espelham o amor que eles tem com a boa música que praticam, a boa música brasileira.

Eles são fiéis a essa cultura, são fiéis a nossa linda língua portuguesa.

Hoje eles tem mais que a custódia dos meus ouvidos. Já conquistaram meu respeito e minha admiração.

 

www.vaniaabreu.com.br

www.marceloquintanilha.com.br

 

 

            Em uma rajada rápida o vento derruba as folhas da Aroeira do quintal vizinho, movendo-as por sobre o piso de concreto, fazendo um ruído oscilante, como se houvesse alguém, como se caminhassem arrastando os pés.

            Nesse dia resolveu escrever uma carta, despretensiosa, falando sobre as coisas simples. Nem o ar frio, nem a chuva fina podiam atrapalhar a aparição do sol, que aos poucos ia tomando conta da paisagem do fim de tarde, por entre as nuvens abrindo espaço para fazer companhia ao menino.

            Sentia como se os dedos falassem, e cada frase escrita era como espelho das palavras sentidas. Chegava a ouvir, no atrito do lápis com o caderno, o sotaque que só nas regiões vizinhas se podia ouvir.

            Desde pequeno havia algo que não o deixava calar, porém, com o passar do tempo, aprendeu a falar cada vez mais baixo, e o silêncio começou a tomar conta da casa e de seus pensamentos.

            Ao finalizar a carta agradeceu, e em um golpe só engavetou o escrito, escondendo o que havia de bonito, ocultando o que havia de mais profundo.

            Voltou a olhar para o sol.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ultimamente andava cansado, e o peso das pernas o fazia parar a cada esquina, numa caminhada cíclica que confundia os vizinhos.

Era daqueles homens que não conseguia ficar parado, hora pensando sobre os assuntos mais importantes, hora descascando um tronco de ipê em frente a sua casa, como se daquilo dependesse sua calma, sua paz.

Quando notou que não havia quem prestasse atenção ao seu assobio, começou a cantarolar pequenas canções de sua autoria, a maioria falando dos dias frios e da solidão.

Quando notou que ninguém ouvia, começou a gritar palavras soltas, uma mescla de sentimentos e definições muitas vezes vividas, outras não.

Quando notou que ninguém sentia, já era tarde…

 

 

  

 

 

 

 

O que gosta de ser essa menina

Gosta de bambolê, de ter Maria-chiquinha

Gosta tanto de ler, gosta do que vê e sente

 

Prende flor no cabelo, usa vestido de chita

Calça chinelo de dedo, na rua sempre desfila

Na passarela do ipê, dança e canta como artista

 

Gosta de pastel de queijo

Com goiabada e um beijo seu

 

Borda o seu nome num lenço

Deixa um bilhete na porta

E diz que vai voltar

 

Diz que vai voltar

 

 

(PS: outra letra de música do projeto citado anteriormente…. começo a sonhar que dê certo!)

\"Nascer do Sol\"

Hoje vou fazer de conta

Sair andando devagar

Como quem tem todo o tempo

E o mundo me esperasse

 

Hoje vou dizer bom dia

Como se o dia fosse

Já que precisa ser feito

Que seja pelo nosso desejo

 

Hoje o mundo me espera

Hoje o dia é bom

Hoje o amor me encontra

E o tempo que me devolva

Os dias que já perdi

 

                

                O dia era chuvoso, e os sapatos faziam um som em contato com a calçada, espalhando gotas pela rua, deixando pegadas que desapareciam em segundos.

                O caminho ele não sabia, mas era movido por um sentimento de falta, algo que conseguia traduzir somente com uma palavra: Saudade.

                Quando o vento o alcançava de lado, trocava os passos, segurando a jaqueta com a mão, escondendo o rosto, mesmo sem ter vergonha do que fazia. Buscava um alívio, buscava uma cura.

                Quando chegou à porta da casa, viu aqueles olhos através da janela. Prendeu a respiração durante alguns segundos.

                Olhou, sorriu, respirou.

                Voltou…

 

                Havia uma maneira de conseguir sua atenção.  Enquanto cantavam o menino sentava sobre os tornozelos, e por ali podia ficar horas, somente escutando.

                Os homens costumavam cantar enquanto batiam seus martelos, e as melodias enchiam o ambiente de calor no inverno gélido do sul do país.

                Quando o mandavam para casa, o menino não se movia.

                Já está na hora!!! Sempre diziam.

O menino apontava para seu punho, onde havia desenhado um relógio, dizendo para si mesmo: no meu tempo sempre há tempo.

E os homens cantavam mais uma canção.

 

               

                Toda vez que a porta rangia e o vento gelado percorria os cômodos da casa a sensação do menino era a mesma. Um tremor parecia brotar de dentro dos ossos, e escondido entre as cadeiras da cozinha ficava horas até alguém chamá-lo.

                Venha cá, senão te arranco a cabeça! A frase soava tão corriqueira que o menino já acostumado levantava aos prantos antes mesmo da dor chegar.

                Todos os tapas e esmurros não chegavam aos pés do medo da frase se concretizar. Na imaginação do menino, as palavras da mãe eram um fantasma com o qual tinha de viver até ser vencido.

                Meu telefone toca, e na emergência alguém me chama. Desço as escadas apressado. Uma mão inchada, a outra não enxergo.

Tudo é tão rápido, e o menino só fala de um alicate, e eu em silêncio só penso em Deus.

O menino pergunta se vai doer, e em seguida me pede a mão. Eu a ofereço, e em troca não recebo a dele, e sim sua cabeça.

 

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