Alguém cruzava pelo corredor ainda cedo de manhã.  Os dias eram todos iguais naquele lugar, como se vida fosse reduzida a poucos metros quadrados, totalmente cercados, de onde não se pode sair.

                Havia um ruído durante a noite que não o deixava dormir. Era uma soma da respiração de tanta gente em tão pouco espaço, e os assobios ganhavam eco por entre as pilastras que dividiam os tais corredores.

                No meio do ar denso, uma voz tomava forma, e trazia um bem estar que atingia a alma, e só depois disso conseguia dormir.

                Anos depois, já em liberdade, resolveu ir ao encontro do dono da voz.

                Ao contar sua história, calou aquele que na fita cassete cantava, enquanto se ouvia um choro misto de satisfação e alegria: Deus estava todo tempo ali, conosco!

 

 

 

PS: Durante o final de semana passado recebi um testemunho que talvez seja o mais importante de toda minha vida como músico. Minhas músicas foram consolo e porta de liberdade de alguém que permaneceu em uma cadeia durante 8 anos. Fui companhia para essa pessoa, que hoje esta livre, muito livre. Ganhei um abraço, e não tive tempo de perguntar nem ao menos seu nome. Quando foi embora, fiquei observando como eram seus passos, e em linha reta, cabeça baixa, só consegui ver que fazia o sinal da cruz enquanto virava a esquina. Naquele momento, eu também podia ir embora.