Agosto 2008


               

                Uma noite ela chamava pelo meu nome, quase sussurrando. Com os olhos fechados me dizia para ficar, e me perguntava se o tempo iria resolver.

                Mesmo na noite gelada sua mão suava, e em três abraços sua respiração voltou ao normal.

                É claro que o tempo vai resolver, só precisamos esperar.

                Esperei resposta, mas ela nesse momento já estava em outro dos seus sonhos.

                O único acordado ali era eu, e assim fiquei para o resto da noite, vigiando o jeito como ela respirava.

               

 

 

            Quando as nuvens escureciam o céu sobre sua cabeça, e o óbvio parecia inevitável, ele então deixava chover.

            Caminhava pela rua devagar em qualquer direção, aprendendo com cada passo, dirigindo o olhar para só então descobrir o rumo. Naqueles segundos, onde a escuridão do pensamento reina, só ele sabia aonde ir.

            Todos os que assim o viam rezavam para que esse segundo nunca acabasse, porque entre a escuridão daqueles olhos brotava um sorriso radiante, quase escondido por um mar que escorria de suas pálpebras.

            Quando notavam, ele já não mais estava ali.

            Havia mudado de direção.

           

           

            Foi enxergar eles tocando e já me vi ali, brincando outra vez. Nós quatro como se estivéssemos de mãos dadas, exatamente como era nos velhos tempos.

            Meu irmão na bateria, meu irmão no baixo, meu irmão na guitarra.

            Nossa família.

            Me deixem sonhar como antigamente.

            Só não me deixem sozinho!

             

PS: amo vocês, gurizada!!!!!

   

              Quando perguntado por que falava enquanto dormia, o menino disse que se cantasse iria acabar com seu próprio sono.

              Quando perguntado como se sentia no dia de seu aniversário, respondeu:

- é mais um dia só pra nós…

Quando perguntado sobre os dias de chuva, disse que o mundo precisava mesmo de mais molho.

Que os algodões pendurados no céu um dia iria capturar.

Que um dia dormiria tanto quanto os gatos.

Que um dia secaria um cubo de gelo.

Pilotaria a moto vermelha sozinho.

Atravessaria vivo o mar morto.

Pescaria um tubarão.

Jogaria na seleção.

Seria médico, já que louco todo mundo já carinhosamente o chamava.

 

 

 

 

 

 

Há mais de 10 anos fui abraçar um homem que parecia ter algo diferente dos outros. Enfrentei uma espera para receber um segundo de sua atenção, e mesmo sem saber direito quem realmente ele era, me senti recompensado pelo olhar que recebi.

            Há alguns dias ganhei um presente. Do final da fila alguém me empurrou para frente desse homem, e não tive muitas palavras, só esperei. Em um gesto inesperado para mim, ele segurou minhas duas mãos e disse simplesmente duas palavras: “Lutamos juntos”.

            Ainda hoje, depois de tanto tempo, tenho dificuldade em saber quem é esse homem, e porque ele gera essa sensação em quem se aproxima dele.

            Alguns chamariam isso de carisma, outros chamariam de magnetismo, mas pouco importa. Aquele gesto mudou minha missão.

            Lutar é o que tenho feito, e tenho tentado resistir a todas as dificuldades em minhas tarefas como músico. Mas a novidade para mim é a palavra “Juntos”.

            É bom não estar sozinho; é bom saber disso.

            Ele podia ter dito: “Deus te abençoe”, e já estaria ótimo, mas preferiu mexer com o que há de mais profundo em mim: a sensação de estar no caminho certo.

            Lutamos juntos!!!

            E segurando minhas duas mãos não me deixou nem sequer agradecê-lo, proibindo meu aceno de mão.